
No dia 17 de junho a comunidade kilombola Ibicuí da Armada, no município de Santana do Livramento, se reuniu em torno da construção de uma barragem subterrânea, talvez a primeira no bioma Pampa.
Trata-se de uma tecnologia social conhecida como “caixa d’água” do sertão e que foi desenvolvida e amplamente divulgada pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), e posteriormente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA).
A barragem subterrânea retém a água da chuva que escoa em cima e dentro do solo, por meio de uma parede subterrânea impermeabilizada com lona. A umidade acumulada forma uma espécie de caixa d´água subterrânea.

A atividade, na comunidade Kilombola de Ibicuí da Armada, iniciou com uma roda de diálogo e projeção de vídeos sobre esta tecnologia social. Após, a comunidade realizou a marcação da área, nivelando o terreno com uso de mangueira de água, técnica popular e de fácil acesso. Em seguida acompanhou o trabalho da retroescavadeira para abrir a vala com 1,80 m de profundidade ao longo de 32 metros de extensão. Após uma leitura coletiva da paisagem, a vala foi aberta no sentido transversal ao sentido do declive do terreno, obedecendo o escoamento natural da água sob o terreno.
Com a vala aberta foi feita a colocação de lona plástica de polietileno 200micras, para tornar a parede impermeável. A vala foi feita com um pequeno desnível para condução da água subterrânea até um poço, montado a partir de 2 bueiros de 1 m de altura por 0,80m de diâmetro, sobrepostos sobre uma base de pedras, na lateral da vala em seu ponto mais baixo (5 cm de desnível). Após, a vala foi fechada com terra, com auxílio da retroescavadeira, e deixado um pequeno talude no local.
Dessa forma, a lona cria uma parede impermeável subterrânea que impede a água de seguir seu fluxo natural. A água se acumula na porosidade da terra, elevando o lençol freático e umedecendo o solo. O poço pode ser usado para fornecer água para os animais e para irrigação.
No semiárido brasileiro a barragem subterrânea tem sido utilizada para o cultivo de alimentos, permitindo a implantação de hortas, roças e cultivos perenes. Também tem contribuído com a dessedentação animal. Portanto, é uma tecnologia social que promove a soberania e a segurança hídrica e alimentar e a autonomia das comunidades.

Importância da barragem subterrânea para as comunidades tradicionais no bioma pampa
O bioma Pampa se diferencia dos outros biomas brasileiros quanto ao clima (subtropical), possuindo as quatro estações do ano bem definidas, com grandes contrastes térmicos e de pluviosidade ao longo do ano, sendo os verões extremamente quentes e secos e os invernos extremamente frios e úmidos.
No verão de 2025 o município de Quaraí – ao lado do município de Santana do Livramento, onde foi implementada a barragem subterrânea – vivenciou a maior temperatura do Brasil (43oC), além de sofrer com extensas queimadas na paisagem local, que é única, composta por ecossistema de butiazal associado ao campo nativo de capim limão.

A intensificação dos eventos climáticos extremos afeta povos e comunidades tradicionais de forma desproporcional. Tanto pelas comunidades não terem acesso aos seus territórios tradicionais, como por afetar seus sistemas produtivos e econômicos tradicionais, seus ofícios e suas práticas culturais, já que dependem diretamente das condições ambientais e da natureza para manutenção de seus modos de vida. Portanto, assim como as enchentes, também as secas e ondas de calor – cada vez mais comuns no bioma Pampa – comprometem a soberania e segurança hídrica e alimentar das comunidades, bem como seus direitos étnicos e coletivos.
A barragem subterrânea na Comunidade Kilombola Ibicuí da Armada foi construída em mutirão, nos campos da família de Luci Tatiane e Adaltro Vaqueiro, que não tem água suficiente para dar aos animais durante o verão.
A intervenção no campo nativo é pontual, não modificando a paisagem, nem formando lâmina d´água como no caso de um açude, o que a torna uma tecnologia social ainda mais importante para o bioma Pampa.

Atividade do projeto “Resistência e adaptação as mudanças climáticas na Pampa esquecida”
A construção da barragem subterrânea foi promovida e viabilizada pelo projeto “Resistência e adaptação as mudanças climáticas na Pampa esquecida” desenvolvido pelo Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa em parceria com a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), e com apoio do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental. Os projetos desenvolvidos com o apoio do FMCJS já possibilitaram a realização de outras iniciativas voltadas a adaptação e mitigação das mudanças climáticas, processos de formação e materiais de apoio voltados aos direitos dos povos e comunidades tradicionais do Pampa.
A atividade ocorreu em articulação com ações do projeto “APA do Yvyrapitã – paisagens socioprodutivas conectando ancestralidades na pampa” desenvolvido pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) em parceria com o Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, na região da Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, uma Unidade de Conservação gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O projeto visa implementar e fortalecer práticas produtivas sustentáveis junto a comunidades tradicionais do interior e entorno da APA Ibirapuitã no bioma Pampa e tem desenvolvido ações também junto à comunidade kilombola Ibicuí da Armada, onde foi implementada a barragem subterrânea.

Crédito: Alex Hercog

Créditos: Luci Tatiane e Adaltro Vaqueiro – foto do poço com água na semana seguinte à construção da barragem subterrânea



